Homens e saúde mental: a barreira do silêncio
Homens morrem por suicídio em proporção quase quatro vezes maior do que mulheres, mas buscam ajuda psicológica muito menos. Entenda como as normas de masculinidade funcionam como barreira ao cuidado e o que a ciência diz sobre isso.

Homens morrem por suicídio em proporção quase quatro vezes maior do que mulheres no Brasil. A Organização Mundial da Saúde documentou padrão semelhante em escala global. Ao mesmo tempo, homens buscam atendimento psicológico e psiquiátrico em proporção significativamente menor. Essas duas informações, juntas, não são coincidência.
A lacuna entre sofrimento e cuidado tem um nome na literatura: barreira masculina à busca de ajuda. Décadas de pesquisa mostram que ela não é um traço biológico. É aprendida, reforçada culturalmente e, em casos extremos, fatal.
O que as normas de masculinidade têm a ver com saúde mental
Em 1984, Brannon e Juni descreveram os pilares culturais da masculinidade em quatro eixos: ser diferente de tudo associado ao feminino, ser o melhor, ser duro e imperturbável, e ser capaz de violência quando a situação exige. Quatro décadas depois, esses eixos continuam sendo rastreados em pesquisas com homens de diferentes culturas e se associam de forma consistente a desfechos negativos de saúde mental.
Mahalik e colaboradores (2003) desenvolveram a Escala de Conformidade com Normas Masculinas (CMNI), que avalia em que medida um homem adere a expectativas culturais de masculinidade. As dimensões mais fortemente associadas ao sofrimento psíquico incluem a autossuficiência, a aversão à expressão de afeto e o desprezo por qualquer coisa percebida como fraqueza. Essas são exatamente as normas que criam distância entre o homem e o pedido de ajuda.
Wong e colaboradores (2017), em meta-análise que reuniu dados de mais de 19.000 participantes, encontraram que maior conformidade com normas masculinas tradicionais estava associada a pior saúde mental e menor probabilidade de buscar ajuda profissional. O efeito era robusto mesmo controlando para variáveis sociodemográficas.
Maior conformidade com normas masculinas tradicionais está associada a pior bem-estar psicológico e menor probabilidade de busca de ajuda profissional, mesmo quando o sofrimento é reconhecido.
Wong et al., Journal of Counseling Psychology, 2017
O conceito de alexitimia masculina normativa
Peter Sifneos introduziu o termo alexitimia em 1973 para descrever a dificuldade de identificar e nomear estados emocionais internos. O conceito surgiu no contexto de pacientes com doenças psicossomáticas, mas a pesquisa subsequente mostrou que essa dificuldade aparece em diferentes contextos clínicos e populacionais.
Ronald Levant desenvolveu o conceito de alexitimia masculina normativa para descrever uma versão funcional e aprendida desse padrão em homens. A premissa é que meninos criados em ambientes que puniam a expressão emocional desenvolvem, ao longo do tempo, dificuldade genuína de reconhecer e nomear o que sentem. Não é que o sentimento não esteja lá; ele está. O problema é que o acesso a ele, e a linguagem para expressá-lo, ficaram subdesenvolvidos por falta de uso e de permissão.
Levant e colaboradores (2009) encontraram diferenças de gênero significativas em medidas de alexitimia em amostras americanas, com homens apresentando maior dificuldade de identificar e descrever sentimentos. A consequência clínica direta é que o homem que não consegue nomear que está com medo, tristeza ou sobrecarga não consegue comunicar isso a ninguém, e tende a expressar o sofrimento pelos canais que a cultura masculina valida: irritabilidade, isolamento ou consumo de álcool.
Os dados do Brasil
Lovisi e colaboradores (2009), em análise de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade cobrindo o período de 1980 a 2006, documentaram que os homens representaram aproximadamente 78% dos óbitos por suicídio no Brasil ao longo das décadas estudadas. A taxa masculina foi consistentemente superior à feminina em todas as regiões e faixas etárias do país.
O padrão de acesso a serviços conta uma história diferente: mulheres buscam atendimento psicológico e psiquiátrico em proporção muito maior. A combinação dessas duas informações aponta para o mesmo problema: homens adoecem também, mas chegam menos e chegam depois, quando chegam.
O II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD, 2012), realizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas, encontrou que 28% dos homens adultos brasileiros preenchiam critérios para uso nocivo ou dependência de álcool, contra 6% das mulheres. Essa proporção de quase cinco para um não é explicável por biologia. Ela reflete como o sofrimento emocional masculino costuma ser canalizado quando não há outro recurso disponível.
Por que chegar a um profissional é mais difícil
Addis e Mahalik (2003), em revisão publicada na American Psychologist, descreveram os processos pelos quais normas masculinas funcionam como obstáculo à busca de ajuda. Homens que aderem mais fortemente à norma de autossuficiência tendem a não ver profissionais de saúde mental como parceiros de resolução de problemas, mas como figuras que exigem uma admissão de fraqueza. Essa percepção, por si mesma, já é uma barreira considerável.
Há também uma questão de reconhecimento. O sofrimento emocional masculino frequentemente não se apresenta como tristeza ou ansiedade abertas, as formas que as campanhas de saúde mental costumam retratar. Apresenta-se como irritabilidade persistente, dificuldade de concentração, aumento do consumo de álcool ou isolamento progressivo. Quando o paciente não reconhece o que está acontecendo como algo com solução clínica, não busca solução clínica.
Galdas e colaboradores (2005), em revisão qualitativa sobre comportamento de busca de ajuda em saúde entre homens, identificaram que a resistência não é monolítica. Ela varia conforme o contexto cultural, o tipo de problema e a presença de apoio social. Homens com parceiras ou filhos, por exemplo, frequentemente chegam ao tratamento motivados pela percepção de que o sofrimento está afetando as pessoas próximas, não só a si mesmos.
A resistência masculina à busca de ajuda não é uniforme. Ela é moldada por contexto, cultura e redes de apoio. O caminho para o cuidado frequentemente passa pela preocupação com quem está ao redor.
Galdas et al., Journal of Men's Health and Gender, 2005
O que a pesquisa diz sobre tratamento
Revisões de ensaios clínicos randomizados para depressão, transtornos de ansiedade e uso de álcool não mostram diferenças consistentes de eficácia entre homens e mulheres quando o engajamento terapêutico é comparável. O problema não está na eficácia do tratamento; está no acesso e na permanência.
Pesquisas sobre engajamento terapêutico em homens indicam que abordagens orientadas a objetivos, com foco em competências e resolução de problemas, tendem a favorecer o engajamento inicial. Isso não significa que a dimensão emocional fica de fora. Ela está presente, mas acessada de uma forma que o paciente consegue reconhecer como produtiva. A exploração emocional acontece como parte de um processo que faz sentido dentro da estrutura que o homem consegue habitar.
Quando buscar ajuda
Se o sofrimento emocional está sendo gerenciado com álcool, isolamento, irritabilidade ou trabalho em excesso como única válvula de escape, o padrão já está instalado e tende a se agravar sem intervenção. A ausência de palavras para descrever o que acontece internamente não é sinal de que está tudo bem. Pode ser exatamente o ponto que precisa de atenção.
Cuidar da saúde mental não é o oposto da força. Reconhecer que algo não está funcionando e buscar ajuda especializada exige mais honestidade consigo mesmo do que qualquer outra coisa que a cultura masculina costuma valorizar.
Fontes
- Wong, Y. J., Ho, M. R., Wang, S. Y., & Miller, I. S. K. (2017). Meta-analyses of the relationship between conformity to masculine norms and mental health-related outcomes. Journal of Counseling Psychology, 64(1), 80-93.
- Mahalik, J. R., Locke, B. D., Ludlow, L. H., Diemer, M. A., Scott, R. P. J., Gottfried, M., & Freitas, G. (2003). Development of the Conformity to Masculine Norms Inventory. Psychology of Men & Masculinity, 4(1), 3-25.
- Addis, M. E., & Mahalik, J. R. (2003). Men, masculinity, and the contexts of help seeking. American Psychologist, 58(1), 5-14.
- Levant, R. F., Hall, R. J., Williams, C. M., & Hasan, N. T. (2009). Gender differences in alexithymia. Psychology of Men & Masculinity, 10(3), 190-203.
- Sifneos, P. E. (1973). The prevalence of 'alexithymic' characteristics in psychosomatic patients. Psychotherapy and Psychosomatics, 22(2-6), 255-262.
- Lovisi, G. M., Santos, S. A., Legay, L., Abelha, L., & Valencia, E. (2009). Epidemiological analysis of suicide in Brazil from 1980 to 2006. Revista Brasileira de Psiquiatria, 31(Suppl 2), S86-S94.
- World Health Organization. (2021). Suicide worldwide in 2019: Global health estimates. WHO.
- Galdas, P. M., Cheater, F., & Marshall, P. (2005). Men and health help-seeking behaviour: Literature review. Journal of Advanced Nursing, 49(6), 616-623.
- Brannon, R., & Juni, S. (1984). A scale for measuring attitudes about masculinity. Psychological Documents, 14, 6-7.
- Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas (INPAD). (2012). II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD). UNIFESP.
Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.
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