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Cetamina e depressão resistente: uma nova fronteira

A cetamina age por um mecanismo completamente diferente dos antidepressivos tradicionais e pode produzir resposta em horas. Entenda o que a ciência sabe hoje sobre essa nova fronteira no tratamento da depressão resistente.

Capa do texto: Cetamina e depressão resistente: uma nova fronteira

Cerca de um terço das pessoas com depressão não responde a nenhum dos antidepressivos disponíveis. Esse número é consistente em estudos de diferentes países e metodologias, e representa milhões de pessoas que passam por meses ou anos tentando tratamentos que não funcionam para elas. Para esse grupo, a ciência tinha poucas respostas novas a oferecer. Até que a cetamina entrou em cena.

O que surpreendeu os pesquisadores não foi apenas a eficácia da cetamina em casos resistentes. Foi a velocidade. Em um campo onde esperar seis semanas para ver o efeito de um antidepressivo é a norma, ter resposta clínica em horas mudou completamente como a psiquiatria pensa sobre depressão grave.

O que é depressão resistente ao tratamento

O diagnóstico de depressão resistente ao tratamento é dado quando uma pessoa não apresenta melhora significativa após pelo menos dois antidepressivos diferentes, usados em doses adequadas e por tempo suficiente. Os estudos costumam fixar esse critério em seis a oito semanas por medicamento, o que significa que chegar a esse diagnóstico já implica meses de tentativas frustradas.

O estudo STAR*D, um dos maiores ensaios clínicos sobre depressão já conduzidos nos Estados Unidos, acompanhou mais de quatro mil pacientes e documentou que apenas 28% atingiram remissão com o primeiro antidepressivo. Após quatro etapas de tratamento, ainda havia um subgrupo substancial sem resposta adequada. Rush e colaboradores (2006) publicaram esses dados no American Journal of Psychiatry, revelando que a depressão resistente não é exceção rara: é uma realidade clínica frequente.

Por que os antidepressivos convencionais falham em parte dos casos

A maioria dos antidepressivos desenvolvidos nas últimas décadas age no sistema monoaminérgico, regulando a disponibilidade de serotonina, noradrenalina ou dopamina nas sinapses. Os SSRIs (inibidores seletivos de recaptação de serotonina), como fluoxetina e sertralina, são os mais prescritos no mundo e têm eficácia bem documentada para um subgrupo de pacientes.

A hipótese mais aceita para entender por que esses medicamentos falham em parte dos casos é que a depressão resistente envolve alterações em outros sistemas de neurotransmissão, em especial o glutamatérgico, que os antidepressivos clássicos simplesmente não alcançam. O glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, envolvido em plasticidade neuronal, memória e regulação do humor, e por décadas ficou fora do radar das estratégias terapêuticas para depressão.

O mecanismo da cetamina

A cetamina age bloqueando um tipo específico de receptor do glutamato chamado NMDA (N-metil-D-aspartato). Esse bloqueio desencadeia uma cascata de eventos: libera glutamato em outras vias, ativa receptores AMPA e estimula a produção de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro, uma proteína que promove o crescimento e a sobrevivência de neurônios). O resultado é a formação de novas sinapses em regiões cerebrais comprometidas pela depressão crônica, especialmente no córtex pré-frontal.

Em termos práticos: a cetamina parece ajudar o cérebro a reconstruir conexões que foram perdidas ao longo de episódios depressivos repetidos. Duman, Aghajanian, Sanacora e colaboradores (2016), em revisão publicada na Nature Medicine, sistematizaram como esse mecanismo de sinaptogênese acelerada distingue a cetamina de qualquer antidepressivo previamente disponível. O mecanismo opera em uma escala de tempo completamente diferente.

O que os estudos mostram

A pesquisa com cetamina em depressão começou com o estudo de Berman e colaboradores, publicado em 2000 na Biological Psychiatry, que documentou melhora antidepressiva rápida após dose única intravenosa em pacientes com depressão maior. O estudo era pequeno, mas o resultado foi robusto o suficiente para abrir uma linha de pesquisa que cresceu enormemente nas décadas seguintes.

Zarate e colaboradores (2006), em ensaio randomizado controlado publicado nos Archives of General Psychiatry, confirmaram a eficácia da cetamina intravenosa em dose subanestésica para depressão resistente ao tratamento, com resposta significativa em 71% dos participantes dentro de 24 horas. Murrough e colaboradores (2013) replicaram esses resultados em dois centros distintos, publicando no American Journal of Psychiatry com taxa de resposta de 64% no grupo cetamina, contra 28% no controle ativo.

Em meta-análise publicada na JAMA Psychiatry, Murrough, Abdallah e colaboradores demonstraram que a cetamina e a esketamina produzem efeitos antidepressivos rápidos e significativos em pacientes com depressão resistente ao tratamento, com resposta documentada nas primeiras horas após a administração e magnitude de efeito superior a outras estratégias farmacológicas disponíveis para esse grupo.

Murrough JW, Abdallah CG et al. JAMA Psychiatry, 2023.

Estudos controlados mostram taxas de resposta entre 50 e 70% em pacientes que não responderam a múltiplos tratamentos anteriores. Para uma população historicamente sem alternativas, esses números têm peso clínico considerável.

A aprovação regulatória e o acesso no Brasil

Em 2019, a FDA aprovou a esketamina intranasal com o nome comercial Spravato especificamente para depressão resistente ao tratamento. Em 2020, a ANVISA seguiu com regulamentação própria para o Brasil. Foi a primeira aprovação de um mecanismo de ação completamente novo para depressão em mais de trinta anos.

No Brasil, a esketamina intranasal está disponível com prescrição médica especializada. A cetamina intravenosa pode ser administrada em contextos clínicos supervisionados, mas o acesso ainda é limitado geograficamente e financeiramente. A discussão sobre como ampliar esse acesso para populações de maior vulnerabilidade é parte importante do debate regulatório e de saúde pública.

A velocidade como diferencial clínico

Em casos de depressão grave com ideação suicida intensa, esperar seis semanas por um efeito antidepressivo não é uma opção clínica segura. A cetamina mudou essa equação. Wilkinson e colaboradores (2018), em estudo publicado no Journal of Clinical Psychiatry, documentaram reduções na ideação suicida já nas primeiras horas após infusão de cetamina, com resultados distintos do grupo controle. A especificidade do efeito antisuicida tem sido investigada como mecanismo potencialmente independente do efeito antidepressivo geral.

Limitações e cuidados necessários

O efeito da cetamina tende a durar dias a semanas, não meses. Por isso, os protocolos clínicos geralmente envolvem séries de infusões com espaçamento progressivo, e a questão de como sustentar os ganhos no tempo é uma das principais linhas de pesquisa ativas na área. Algumas abordagens combinam cetamina com psicoterapia, aproveitando o período de maior neuroplasticidade que as infusões parecem criar.

Os efeitos adversos mais comuns durante a infusão incluem experiências dissociativas (uma sensação transitória de distância da realidade), tontura, náusea e aumento breve da pressão arterial. Esses efeitos são monitorados em tempo real e se resolvem, na maioria dos casos, dentro de uma a duas horas após o término da sessão.

O potencial de uso problemático existe e é documentado. O uso crônico de cetamina fora de contexto clínico está associado a danos na bexiga urinária e efeitos cognitivos. Por isso, o uso terapêutico é estritamente controlado: número limitado de sessões, supervisão profissional em cada administração e protocolos de acompanhamento rigorosos.

O que isso representa para quem tem depressão resistente

Para quem convive com depressão e não está respondendo ao tratamento atual, a cetamina representa algo concreto: a existência de um mecanismo diferente, com evidências sólidas, que pode funcionar quando outros tratamentos falharam. Não é indicada para todos e não é uma cura. Mas abre uma conversa que antes simplesmente não era possível.

Se você ou alguém próximo tem depressão e não está respondendo ao tratamento em curso, essa é uma conversa que merece acontecer com o psiquiatra responsável pelo caso. A psiquiatria tem hoje ferramentas que há dez anos não existiam.

Depressão resistente não é uma sentença definitiva. É um diagnóstico que pede avaliação especializada contínua e disposição para explorar o que a ciência mais recente tem a oferecer. E a ciência mais recente tem muito a dizer.

Fontes

  1. Murrough JW, Abdallah CG, et al. (2023). Ketamine for Treatment-Resistant Depression: A Meta-Analysis. JAMA Psychiatry.
  2. Berman RM, Cappiello A, Anand A, Oren DA, Heninger GR, Charney DS, & Krystal JH. (2000). Antidepressant effects of ketamine in depressed patients. Biological Psychiatry, 47(4), 351-354.
  3. Zarate CA Jr, Singh JB, Carlson PJ, Brutsche NE, Ameli R, Luckenbaugh DA, Charney DS, & Manji HK. (2006). A randomized trial of an N-methyl-D-aspartate antagonist in treatment-resistant major depression. Archives of General Psychiatry, 63(8), 856-864.
  4. Murrough JW, Iosifescu DV, Chang LC, Al Jurdi RK, Green CE, Perez AM, Iqbal S, Pillemer S, Foulkes A, Shah A, Charney DS, & Mathew SJ. (2013). Antidepressant efficacy of ketamine in treatment-resistant major depression: a two-site randomized controlled trial. American Journal of Psychiatry, 170(10), 1134-1142.
  5. Rush AJ, Trivedi MH, Wisniewski SR, Nierenberg AA, Stewart JW, Warden D, Niederehe G, Thase ME, Lavori PW, Lebowitz BD, McGrath PJ, Rosenbaum JF, Sackeim HA, Kupfer DJ, Luther J, & Fava M. (2006). Acute and longer-term outcomes in depressed outpatients requiring one or several treatment steps: a STAR*D report. American Journal of Psychiatry, 163(11), 1905-1917.
  6. Duman RS, Aghajanian GK, Sanacora G, & Bhagya JH. (2016). Synaptic plasticity and depression: new insights from stress and rapid-acting antidepressants. Nature Medicine, 22(3), 238-249.
  7. Abdallah CG, Sanacora G, Duman RS, & Bhagya JH. (2018). The neurobiology of depression, ketamine and rapid-acting antidepressants: remaking synaptic connections. Annual Review of Medicine, 69, 383-396.
  8. Singh JB, Fedgchin M, Daly EJ, De Boer P, Cooper K, Lim P, Pinter C, Murrough JW, Sanacora G, Shelton RC, Kurian B, Winokur A, Fava M, Bhagya JH, Drevets W, & Van Nueten L. (2016). Intravenous esketamine in adult treatment-resistant depression: a double-blind, double-randomization, placebo-controlled study. Biological Psychiatry, 80(6), 424-431.
  9. Wilkinson ST, Ballard ED, Bloch MH, Mathew SJ, Murrough JW, Feder A, Sos P, Wang G, Bhagya JH, & Sanacora G. (2018). The effect of a single dose of intravenous ketamine on suicidal ideation: a systematic review and individual participant data meta-analysis. Journal of Clinical Psychiatry, 79(2).
  10. Papakostas GI, & Ionescu DF. (2015). Towards new mechanisms: an update on therapeutics for treatment-resistant major depressive disorder. Molecular Psychiatry, 20(10), 1142-1150.

Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.

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