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Quem sou eu sem a substância?

A pergunta 'quem sou eu sem a substância?' é uma das mais difíceis da recuperação. A ciência explica por que ela aparece e como a identidade pode ser reconstruída.

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A pergunta chega, às vezes, como um susto. Às vezes como um peso que fica quieto durante o tratamento e então aparece quando menos se espera. "Quem sou eu sem isso?" Para muitas pessoas em processo de recuperação da dependência química, essa questão não é filosófica. É urgente, concreta e, frequentemente, aterrorizante.

A substância, com o tempo, passou a organizar o dia. As relações. As emoções. A forma de lidar com conflitos, de relaxar, de comemorar, de aguentar. Retirar isso sem reconstruir o que fica deixa um vazio enorme. E esse vazio tem nome dentro da psicologia clínica e das pesquisas sobre recuperação: crise de identidade.

Esse texto não é sobre teoria abstrata. É sobre o que acontece concretamente no processo de se tornar uma pessoa que não depende mais de uma substância para existir, e o que a ciência já sabe sobre como esse processo funciona.

Como a substância se torna parte do "eu"

A identidade não é algo fixo, gravado uma vez e imutável. Ela é construída continuamente a partir do que fazemos, com quem nos relacionamos, o que valorizamos e como interpretamos nossa própria história. No uso crônico de substâncias, essa construção sofre uma interferência profunda e progressiva.

Neurologicamente, o que ocorre é uma mudança nos padrões de resposta do sistema de recompensa. O núcleo accumbens (a região central desse sistema, que registra prazer e sinaliza "repita isso") passa a responder de forma muito mais intensa à substância do que a qualquer outra fonte de satisfação. Comer, trabalhar, criar, se conectar com pessoas: tudo isso vai perdendo peso no mapa interno de motivação. A substância ocupa progressivamente o primeiro lugar nesse mapa.

O resultado prático dessa mudança neural é que a pessoa reorganiza a vida em torno do uso. Não por fraqueza de caráter, mas porque o cérebro aprendeu, repetição após repetição, que aquilo é o que "funciona". A substância entra na narrativa de si mesmo como um recurso indispensável, uma companhia constante e, com o tempo, um elemento central da identidade.

Muitas pessoas descrevem essa percepção de forma clara quando olham para trás: não saber mais quem eram sem a substância, não conseguir socializar sem ela, não reconhecer prazer em nada que não passasse por aquele uso. Essas descrições não são exagero. Elas refletem uma mudança real na organização do self ao longo do tempo.

O que a pesquisa revela sobre identidade e recuperação

McIntosh e McKeganey, em estudo publicado na Social Science & Medicine em 2000, entrevistaram pessoas que haviam se recuperado do uso de drogas e identificaram um padrão central: a recuperação bem-sucedida estava associada à capacidade de construir ativamente uma identidade não-usuária. Não bastava decidir parar de usar. Era necessário ter um relato de si mesmo que fizesse sentido sem a substância.

"A recuperação envolve fundamentalmente a reconstrução de uma identidade coerente e positiva que não depende da substância como elemento organizador do self." (McIntosh e McKeganey, Social Science & Medicine, 2000)

Esse achado é consistente com o modelo de identidade social aplicado à recuperação. Frings e Albery, em artigo publicado em Addictive Behaviors em 2015, propuseram que a manutenção da sobriedade é mais estável quando a pessoa começa a se identificar como "alguém em recuperação" do que quando apenas "para de usar". A diferença parece sutil, mas tem consequências práticas concretas. A identidade funciona como uma âncora comportamental: tomamos decisões de forma mais consistente com quem acreditamos ser.

O ambiente social também é central nesse processo. Dingle e colaboradores (2015), em revisão publicada no British Journal of Social Psychology, mostraram que pessoas que conseguem transitar para novos grupos sociais (fora do círculo de uso) apresentam taxas significativamente mais altas de manutenção da recuperação. Isso ocorre porque o grupo de pertencimento co-constrói a identidade. Quando as pessoas ao redor nos veem de uma forma diferente, e quando nos relacionamos a partir de atividades que não giram em torno da substância, a narrativa interna começa a se reorganizar.

Markus e Nurius, em artigo seminal publicado na American Psychologist em 1986, introduziram o conceito de "possíveis selves" (os "eus" que imaginamos poder nos tornar) como elemento central na motivação para mudança. A pesquisa aplicada à dependência mostrou que pessoas em recuperação que conseguem construir imagens concretas e detalhadas de um "eu futuro sóbrio" têm mais capacidade de sustentar mudanças comportamentais ao longo do tempo.

Reconstrução não é apagamento

Existe uma confusão frequente no início da recuperação: a ideia de que será necessário apagar o passado e virar uma pessoa completamente diferente. Essa expectativa, além de irreal, pode ser paralisante. A pesquisa aponta para algo diferente e mais alcançável.

William White, pesquisador americano com décadas de trabalho em recuperação de dependência, descreve o que chama de "identidade de recuperação": não a negação ou apagamento da história de uso, mas a incorporação dela em uma identidade maior e mais ampla. Uma identidade que inclui essa história, mas que também inclui valores, vínculos, projetos e uma visão de si mesmo que vai além da substância.

Na prática, esse processo envolve perguntas concretas. O que eu gostava de fazer antes do uso mais intenso? O que ainda me interessa, mesmo que eu não tenha tido contato por um tempo? Quem eu quero ser perto? O que importa para mim agora que não é a substância? Essas perguntas não são ingênuas nem simples de responder. Mas elas são o trabalho real da reconstrução identitária.

Abordagens terapêuticas com evidência robusta, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a Entrevista Motivacional, trabalham diretamente com esse campo. De formas diferentes, todas ajudam a pessoa a clarificar valores, reconhecer padrões automáticos e construir uma visão de si mesma que possa sustentar a recuperação a longo prazo. A Entrevista Motivacional, em especial, parte exatamente de perguntas sobre identidade e valores para ativar motivação interna para mudança.

O tempo que o processo leva

A reconstrução de identidade na recuperação não acontece em uma decisão, em um insight ou em um fim de semana de tratamento intensivo. Pesquisas longitudinais mostram que a identidade em recuperação se consolida gradualmente ao longo de meses e, muitas vezes, anos.

George Vaillant, psiquiatra de Harvard, acompanhou por 60 anos homens que haviam tido diagnóstico de alcoolismo. Os dados, publicados na revista Addiction em 2003, mostram que a estabilidade na recuperação aumentava progressivamente com o tempo, e que aqueles que desenvolveram conexões significativas (trabalho com sentido, relacionamentos de qualidade, senso de propósito) sustentaram a recuperação de forma mais consistente do que aqueles que apenas removeram a substância sem preencher o espaço com algo diferente.

O vazio que aparece no início, aquele "não sei quem sou sem isso", é real. Mas ele não é permanente. Muitas pessoas que passaram por esse processo descrevem que, com tempo e suporte adequado, a questão vai mudando de natureza: de "quem sou eu sem a substância?" para "quem estou me tornando?". Essa mudança na pergunta já é parte do processo.

Quando procurar ajuda especializada

Se a questão "quem sou eu sem isso" está presente, isso já é um sinal de que algo importante está acontecendo. Não é fraqueza. Não é sinal de que a recuperação não vai funcionar. É, frequentemente, o momento em que o trabalho mais profundo começa a se tornar possível.

A crise de identidade na recuperação não é um obstáculo ao processo: ela é parte do processo. Reconhecer isso pode reduzir o peso que essa questão carrega, porque significa que o desconforto não é um erro. É um dado.

O acompanhamento psicológico especializado em dependência química pode oferecer o espaço e as ferramentas para navegar esse processo com mais segurança. Não para apressar respostas, mas para criar as condições em que respostas mais autênticas possam emergir gradualmente. E, com o tempo, uma identidade que não precise da substância para fazer sentido.

Fontes

  1. McIntosh, J., & McKeganey, N. (2000). Addicts' narratives of recovery from drug use: constructing a non-addict identity. Social Science & Medicine, 50(10), 1501-1510.
  2. Frings, D., & Albery, I. P. (2015). The Social Identity Model of Cessation Maintenance: Organizing principles for understanding and promoting relinquishment of health-risk identities. Addictive Behaviors, 44, 33-42.
  3. Dingle, G. A., Stark, C., Cruwys, T., & Best, D. (2015). Breaking good: Breaking ties with social groups may be good for recovery from substance misuse. British Journal of Social Psychology, 54(2), 236-254.
  4. White, W. L. (2007). Addiction recovery: its definition and conceptual boundaries. Journal of Substance Abuse Treatment, 33(3), 229-241.
  5. Vaillant, G. E. (2003). A 60-year follow-up of alcoholic men. Addiction, 98(8), 1043-1051.
  6. Markus, H., & Nurius, P. (1986). Possible selves. American Psychologist, 41(9), 954-969.
  7. Best, D., & Lubman, D. I. (2012). The recovery paradigm: A model of hope and change for alcohol and drug addiction. Australian Family Physician, 41(8), 593-597.
  8. Buckingham, S. A., Frings, D., & Albery, I. P. (2013). Social identity and health: applying social identity approaches to understanding and tackling substance use. Drugs: Education, Prevention and Policy, 20(4), 259-270.
  9. Kearney, M. H. (1998). Truthful self-nurturing: a grounded formal theory of women's addiction recovery. Qualitative Health Research, 8(4), 495-512.
  10. Miller, W. R., & Rollnick, S. (2013). Motivational Interviewing: Helping people change (3rd ed.). Guilford Press.

Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.

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