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Comportamento sexual compulsivo: o que a ciência classifica

O Transtorno de Comportamento Sexual Compulsivo foi incluído na CID-11 pela OMS em 2019. Entenda o que a ciência define como compulsão sexual, como o cérebro está envolvido e quando buscar ajuda.

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Tem pessoas que passam horas planejando um encontro sexual, se arrependem antes mesmo de terminar e repetem o ciclo no dia seguinte. Tem pessoas que perdem empregos, relacionamentos e tempo que nunca volta, sem conseguir parar. Quando a sexualidade deixa de ser fonte de prazer e conexão e passa a funcionar como uma compulsão que governa escolhas, estamos diante de um fenômeno que a ciência leva a sério há décadas e que ganhou classificação oficial em 2019.

Naquele ano, a Organização Mundial da Saúde incluiu o Transtorno de Comportamento Sexual Compulsivo na Classificação Internacional de Doenças, a CID-11, com o código 6C72. Esse passo representou algo significativo: pela primeira vez, um padrão de comportamentos sexuais fora de controle recebeu definição clínica rigorosa, critérios diagnósticos e reconhecimento internacional.

O que entra nessa definição

O diagnóstico não é sobre frequência de atividade sexual. Uma pessoa sexualmente ativa, mesmo muito ativa, não tem necessariamente um transtorno. O que a CID-11 descreve é um padrão persistente de comportamento sexual que a pessoa não consegue controlar, que consome tempo e energia de forma significativa e que continua mesmo diante de consequências sérias: relacionamentos destruídos, risco de infecções sexualmente transmissíveis, prejuízo profissional, sofrimento intenso.

"Compulsive sexual behaviour disorder is characterised by a persistent pattern of failure to control intense, repetitive sexual impulses or urges resulting in repetitive sexual behaviour." Organização Mundial da Saúde, CID-11, 2019

Pornografia compulsiva, masturbação compulsiva, busca compulsiva por parceiros, uso compulsivo de serviços sexuais: todos esses padrões podem fazer parte do quadro, dependendo de como se encaixam nos critérios acima. O traço comum é a perda de controle, o fracasso repetido em reduzir ou interromper o comportamento e o uso da sexualidade para tentar aliviar estados emocionais como ansiedade, tédio ou angústia.

Os pesquisadores Kraus e colaboradores, em artigo publicado em 2018 na revista World Psychiatry, sistematizaram os critérios que fundamentaram essa classificação. Para eles, o traço central não é a intensidade do desejo sexual, mas a incapacidade de regular o comportamento e as consequências funcionais dessa incapacidade na vida da pessoa.

O que acontece no cérebro

O sistema de recompensa do cérebro, que inclui o núcleo accumbens, a região que registra prazer e motiva a repetição de comportamentos, e o córtex pré-frontal, a área responsável por avaliar consequências e frear impulsos, foi moldado pela evolução para responder a estímulos relevantes como alimentação e reprodução. Quando esse sistema é ativado repetidamente de forma muito intensa, ele começa a se adaptar de maneiras que complicam o controle.

Estudos de neuroimagem conduzidos por pesquisadores como Valerie Voon, da Universidade de Cambridge, mostraram que pessoas com comportamento sexual compulsivo apresentam maior reatividade cerebral a estímulos sexuais específicos e menor sensibilidade a recompensas cotidianas. Esse padrão, descrito em artigo publicado no PLOS ONE em 2014, é compartilhado com os transtornos por uso de substâncias, onde o sistema de recompensa também se hipersensibiliza para o estímulo principal enquanto perde capacidade de responder ao que é ordinário.

O córtex pré-frontal também aparece comprometido nesse quadro. Quando o freio executivo funciona mal, a distância entre o impulso e o ato fica muito curta. A pessoa pode reconhecer racionalmente que não quer agir de determinada forma, mas o impulso chega com força e velocidade antes que qualquer avaliação consiga intervir. Isso não é falta de caráter. É neurobiologia que pode ser tratada.

Prevalência e quem mais afeta

Estimativas de prevalência variam conforme a metodologia utilizada, mas estudos de base populacional apontam que entre 3% e 6% dos adultos podem apresentar algum nível de comportamento sexual compulsivo clinicamente relevante. A frequência é maior em homens nas amostras clínicas, mas pesquisadores alertam que isso provavelmente reflete barreiras de acesso e diferentes formas de apresentação em mulheres, que tendem a buscar ajuda com menos frequência para questões sexuais. O transtorno não tem relação com orientação sexual.

Comorbidades são comuns. Transtorno de ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e uso problemático de substâncias aparecem com frequência elevada em pessoas que apresentam comportamento sexual compulsivo. Em muitos casos, a sexualidade compulsiva funciona como uma estratégia de regulação emocional, uma tentativa de aliviar desconforto psicológico que não encontrou outros recursos.

O debate em torno do diagnóstico

A classificação pela OMS não encerrou todas as discussões. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria em 2013, analisou a proposta de incluir o "Transtorno Hipersexual" como diagnóstico formal e decidiu não incluí-lo naquele momento, por considerar as evidências insuficientes. O debate continua entre pesquisadores que defendem sua classificação como vício comportamental e outros que preferem a categoria de transtorno do controle de impulsos.

Parte do debate envolve uma distinção clinicamente relevante: a diferença entre comportamento que causa sofrimento genuíno por perda de controle e comportamento que gera culpa por razões morais ou religiosas, sem constituir necessariamente um transtorno. Um estudo de Joshua Grubbs e colaboradores, publicado nos Archives of Sexual Behavior em 2019, mostrou que a incongruência moral, o conflito entre comportamentos sexuais e valores pessoais, é um preditor forte de sofrimento relacionado à pornografia, independentemente da frequência de uso.

Essa distinção importa na prática: alguém que usa pornografia com regularidade e sofre por isso pode estar sofrendo por razões muito diferentes de alguém que genuinamente perdeu controle sobre o comportamento. O tratamento adequado depende de identificar qual desses cenários está em jogo. Profissionais treinados para isso fazem essa distinção com cuidado e sem julgamento.

O que funciona no tratamento

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é o recurso com mais evidências para o tratamento do comportamento sexual compulsivo. O trabalho envolve identificar os gatilhos emocionais e situacionais que precedem os episódios compulsivos, desenvolver estratégias de enfrentamento alternativas e reestruturar crenças disfuncionais sobre sexualidade e autocontrole.

Abordagens baseadas em mindfulness, que treinam a capacidade de observar impulsos sem agir sobre eles imediatamente, também têm mostrado resultados promissores em estudos preliminares. Quando há comorbidade com depressão, ansiedade ou TDAH, o tratamento dessas condições frequentemente impacta de forma positiva o comportamento sexual compulsivo também.

Em casos mais graves, inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) têm sido utilizados como suporte farmacológico, sempre com avaliação médica individual e acompanhamento próximo.

Se o comportamento sexual está tomando espaço que deveria pertencer a outras áreas da vida, se as tentativas de parar ou reduzir fracassam repetidamente, se há sofrimento com o que está acontecendo: isso já é razão suficiente para buscar avaliação profissional. O transtorno tem tratamento, e reconhecer o problema é o passo mais difícil e o mais decisivo.

Fontes

  1. World Health Organization. (2019). International Classification of Diseases for Mortality and Morbidity Statistics (11th Revision). WHO.
  2. Kraus, S. W., Krueger, R. B., Briken, P., First, M. B., Stein, D. J., Kaplan, M. S., Voon, V., Abdo, C. H. N., Grant, J. E., Atalla, E., & Reed, G. M. (2018). Compulsive sexual behaviour disorder in the ICD-11. World Psychiatry, 17(1), 109-110.
  3. Kraus, S. W., Voon, V., & Potenza, M. N. (2016). Should compulsive sexual behavior be considered an addiction? Addiction, 111(12), 2097-2106.
  4. Potenza, M. N., Gola, M., Voon, V., Kor, A., & Kraus, S. W. (2017). Is excessive sexual behaviour an addictive disorder? The Lancet Psychiatry, 4(9), 663-664.
  5. Voon, V., Mole, T. B., Banca, P., Porter, L., Morris, L., Mitchell, S., Lapa, T. R., Karr, J., Harrison, N. A., Potenza, M. N., & Irvine, M. (2014). Neural correlates of sexual cue reactivity in individuals with and without compulsive sexual behaviours. PLOS ONE, 9(7), e102419.
  6. Kafka, M. P. (2010). Hypersexual disorder: A proposed diagnosis for DSM-V. Archives of Sexual Behavior, 39(2), 377-400.
  7. Grubbs, J. B., Perry, S. L., Wilt, J. A., & Reid, R. C. (2019). Pornography problems due to moral incongruence: An integrative model with a systematic review and meta-analysis. Archives of Sexual Behavior, 48(2), 397-415.
  8. Kor, A., Zilcha-Mano, S., Fogel, Y. A., Mikulincer, M., Reid, R. C., & Potenza, M. N. (2014). Psychometric development of the Problematic Pornography Use Scale. Addictive Behaviors, 39(5), 861-868.
  9. Reid, R. C., Carpenter, B. N., Hook, J. N., Garos, S., Manning, J. C., Gilliland, R., Cooper, E. B., McKittrick, H., Davtian, M., & Fong, T. (2012). Report of findings in a DSM-5 field trial for hypersexual disorder. Journal of Sexual Medicine, 9(11), 2868-2877.
  10. Potenza, M. N. (2006). Should addictive disorders include non-substance-related conditions? Addiction, 101(s1), 142-151.

Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.

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