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GLP-1 e dependência: o que a ciência já sabe

Os agonistas GLP-1, a classe dos medicamentos como o Ozempic, começaram a mostrar efeitos surpreendentes no comportamento aditivo. Entenda o que a pesquisa científica já documenta sobre esse mecanismo e o que ele pode significar para o tratamento da dependência.

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Em 2023, médicos de diferentes países começaram a notar algo inusitado nos relatos de pacientes em uso de semaglutida, o princípio ativo do Ozempic: vários deles mencionavam, sem que ninguém tivesse perguntado, que o desejo de beber álcool havia diminuído. Não tinham tentado parar. O impulso simplesmente foi perdendo força ao longo das semanas de tratamento.

Esse achado inesperado acelerou uma linha de pesquisa que já avançava discretamente em laboratórios de neurociência havia anos. A questão central que passou a orientar estudos em vários países: os agonistas do receptor GLP-1 (glucagon-like peptide-1, peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) poderiam ter um papel no tratamento das dependências? O que a ciência levantou até agora é mais robusto do que se poderia esperar.

O que é o GLP-1 e por que o cérebro importa aqui

O GLP-1 é um hormônio produzido principalmente pelas células do intestino delgado quando detectam a chegada de alimento. Sua função mais conhecida é sinalizar saciedade: ele estimula o pâncreas a liberar insulina, desacelera o esvaziamento gástrico e sinaliza ao cérebro que chegou energia suficiente. Foi esse papel que o colocou no centro do tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade.

O que a pesquisa das últimas duas décadas revelou é que os receptores para esse hormônio não ficam confinados ao sistema digestivo. Eles estão presentes em várias regiões cerebrais, incluindo estruturas do sistema mesolímbico dopaminérgico, o circuito responsável por registrar recompensa, aprendizado por reforço e motivação. Essa é a mesma rede que substâncias psicoativas exploram para criar dependência.

Como o GLP-1 age no circuito de recompensa

O sistema de recompensa do cérebro funciona, de modo geral, assim: quando algo prazeroso acontece, neurônios na área tegmental ventral liberam dopamina no núcleo accumbens, a estrutura que registra "isso foi bom, repita". Substâncias como álcool, cocaína e opioides invadem esse circuito com uma intensidade que nenhum comportamento natural consegue reproduzir. O resultado, com o uso repetido, é a reorganização gradual do cérebro em torno da substância.

Os receptores GLP-1 presentes nessas regiões funcionam como moduladores desse processo. Quando ativados por agonistas farmacológicos, eles atenuam a resposta dopaminérgica desencadeada pela substância psicoativa. A liberação de dopamina continua, mas em menor magnitude. O craving, que é o estado de antecipação intensa que sustenta o comportamento compulsivo, também reduz.

Esse mecanismo foi documentado em estudos com diferentes substâncias. Pesquisas do grupo de Erika Jerlhag, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, descreveram o efeito do agonista GLP-1 exenatida sobre o comportamento de busca por álcool em roedores. Trabalhos paralelos mostraram impacto semelhante sobre os efeitos reforçadores da nicotina, com redução do craving e da sensibilização locomotora induzida pelo tabaco.

"Os receptores GLP-1 no sistema mesolímbico representam um alvo promissor para o tratamento de transtornos por uso de substâncias, com base em evidências convergentes de estudos pré-clínicos e clínicos." (Klausen et al., British Journal of Pharmacology, 2022)

O que os estudos clínicos mostram

A transição dos estudos em animais para ensaios clínicos humanos é sempre o passo mais exigente. No caso do GLP-1 e dependência, essa etapa está em pleno andamento, com resultados preliminares que têm animado a comunidade científica.

Um ensaio clínico randomizado e controlado publicado no JCI Insight em 2022 testou exenatida de liberação prolongada em pacientes com transtorno por uso de álcool. O desfecho primário não alcançou significância estatística na amostra completa, mas análises secundárias mostraram redução expressiva no consumo em subgrupos específicos, especialmente em pessoas com índice de massa corporal elevado. A hipótese levantada pelos pesquisadores é que o efeito seja parcialmente mediado pelo mesmo circuito que regula a ingestão alimentar.

No campo observacional, dados de registros populacionais de grande escala têm mostrado associações consistentes. Um estudo publicado em 2024 na revista Nature Communications analisou registros de saúde de mais de 83 mil pessoas nos Estados Unidos e encontrou que o uso de semaglutida estava associado a taxas significativamente menores de incidência e recorrência de transtorno por uso de álcool, mesmo após ajuste por múltiplas variáveis de confusão.

Um estudo de 2023 publicado no Scientific Reports avaliou pacientes com obesidade e encontrou reduções relevantes no consumo de álcool em quem usava semaglutida ou tirzepatida, reforçando o sinal observacional em uma população diferente.

Quanto ao tabaco, análises de pacientes usando agonistas GLP-1 para controle de peso têm documentado reduções não planejadas no consumo de cigarros e no craving por nicotina. Ensaios clínicos específicos para cessação do tabagismo com esses medicamentos estão em fase de recrutamento em centros europeus e norte-americanos.

A hipótese do drive de recompensa geral

Uma das ideias que mais têm ganhado tração na literatura é a de que os agonistas GLP-1 não atuam sobre uma substância específica, mas sobre o que pesquisadores descrevem como o "drive de recompensa geral" do organismo: a tendência a buscar estímulos de alta intensidade, seja comida hiperpalatável, álcool, substâncias psicoativas ou comportamentos compulsivos como jogo.

Essa perspectiva abre uma possibilidade nova para o campo do tratamento. A maioria dos fármacos disponíveis hoje para dependência age sobre mecanismos ligados a uma substância ou classe específica, como a naltrexona para álcool e opioides, ou a bupropiona para tabaco. Um medicamento que modulasse o circuito de recompensa de forma mais ampla representaria um recurso inédito no arsenal terapêutico.

O que ainda não está respondido

A pesquisa está longe de concluída. Os ensaios clínicos controlados específicos para dependência ainda são poucos e com amostras modestas. Não existe nenhum agonista GLP-1 aprovado por nenhuma agência regulatória para o tratamento de qualquer transtorno por uso de substâncias.

Perguntas centrais permanecem sem resposta definitiva: o efeito é direto, via receptores cerebrais de GLP-1, ou indireto, via alterações metabólicas e hormonais sistêmicas? Quais substâncias e quais perfis de pacientes se beneficiam mais? Os efeitos se mantêm após a interrupção do medicamento? Qual seria a dose e a duração ideais de tratamento?

Há também questões sobre segurança específica para essa população. Os agonistas GLP-1 têm perfil de tolerabilidade bem estabelecido para diabetes e obesidade, mas a experiência em pessoas com transtornos por uso de substâncias, que frequentemente apresentam comorbidades clínicas e psiquiátricas complexas, ainda está sendo construída.

O lugar do GLP-1 no tratamento da dependência hoje

Com base na evidência disponível, os agonistas GLP-1 não substituem nem devem substituir as abordagens terapêuticas estabelecidas para dependência. A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional, continua sendo o pilar do tratamento. O suporte social e a estrutura de vida têm impacto decisivo nos desfechos a longo prazo.

O que o desenvolvimento desses medicamentos representa é um possível componente farmacológico adicional dentro de planos de tratamento integrados. Para um campo que ainda carece de opções farmacológicas para várias formas de dependência, isso tem um peso real.

Os próximos anos de ensaios clínicos de fase 2 e fase 3 vão determinar se essa promessa se traduz em prática clínica. O que já está claro é que a neurociência da dependência continua avançando, e a fronteira entre tratamento metabólico e tratamento psiquiátrico está ficando cada vez mais porosa.

Quando buscar ajuda

Se o consumo de álcool, o uso de substâncias ou qualquer comportamento compulsivo está difícil de controlar, o momento de buscar suporte especializado é agora. O tratamento não precisa esperar por uma crise maior ou por um fundo de poço. A evidência consistente aponta que intervenções precoces têm melhores desfechos, e o arsenal terapêutico disponível hoje, tanto psicológico quanto farmacológico, é muito mais robusto do que era há uma década.

A pesquisa com GLP-1 é mais um capítulo de uma história mais longa: a de que dependência é uma condição do cérebro, com mecanismos biológicos identificáveis. E condições com mecanismos identificáveis respondem a tratamento.

Fontes

  1. Klausen, M. K., Thomsen, M. D., Wortwein, G., & Fink-Jensen, A. (2022). The role of glucagon-like peptide 1 (GLP-1) in addictive disorders. British Journal of Pharmacology, 179(4), 625-641.
  2. Klausen, M. K., et al. (2022). Exenatide once weekly for alcohol use disorder investigated in a randomized, placebo-controlled clinical trial. JCI Insight, 7(19), e159863.
  3. Shirazi, R. H., Dickson, S. L., & Skibicka, K. P. (2013). Gut peptide GLP-1 and its analogue, Exendin-4, decrease alcohol intake and reward. PLoS ONE, 8(4), e61965.
  4. Egecioglu, E., Engel, J. A., & Jerlhag, E. (2013). The glucagon-like peptide 1 analogue Exendin-4 attenuates the nicotine-induced locomotor stimulation, accumbal dopamine release, conditioned place preference as well as the expression of locomotor sensitization in mice. PLoS ONE, 8(10), e77284.
  5. Jerlhag, E. (2018). Gut-brain axis and addictive disorders: A review with focus on alcohol and drugs of abuse. Pharmacology & Therapeutics, 196, 1-14.
  6. Dickson, S. L., Shirazi, R. H., Hansson, C., Bergquist, F., Nissbrandt, H., & Skibicka, K. P. (2012). The glucagon-like peptide 1 (GLP-1) analogue, exendin-4, decreases the rewarding value of food: a new role for mesolimbic GLP-1 receptors. Journal of Neuroscience, 32(14), 4812-4820.
  7. Quddos, F., Hubshman, Z., Tegge, A., et al. (2023). Semaglutide and tirzepatide reduce alcohol consumption in individuals with obesity. Scientific Reports, 13, 20998.
  8. Wang, W., Volkow, N. D., Berger, N. A., et al. (2024). Associations of semaglutide with incidence and recurrence of alcohol use disorder in real-world population. Nature Communications, 15, 4548.
  9. Koopmann, A., Schuster, R., Dos Santos, M., Reker, P., Bach, P., Weil, G., Reinhard, I., Wiedemann, K., & Kiefer, F. (2019). Alcohol cue reactivity and craving in alcohol-dependent patients: effects of the glucagon-like peptide-1 receptor agonist exenatide. Pharmacology Biochemistry and Behavior, 187, 172796.

Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.

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