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O calmante que era pra ser ponte e virou muleta

O comprimido que aliviava a ansiedade no começo, com o tempo, passa a ser preciso só pra você ficar normal. Como o calmante vira dependência sem culpa sua, por que nunca se para sozinho, e o caminho de saída.

Capa do texto: O calmante que era pra ser ponte e virou muleta

Tem gente que começa a tomar um calmante numa fase dura: um luto, noites inteiras sem dormir, o peito apertado o dia todo. O médico receita, diz que é por uns dias, e funciona. Meses depois, já não pega mais no sono sem o comprimido. E quando tenta ficar sem, o coração dispara como se algo terrível fosse acontecer.

A pessoa não fez nada de errado. Seguiu a receita à risca. Mas o que era pra ser uma ajuda de passagem virou necessidade diária, e nem percebeu quando a linha foi cruzada.

Foi receitado, e ajudou

Os benzodiazepínicos, esses tarja preta que acalmam, não são vilões. Funcionam, e funcionam bem, pra atravessar uma crise de ansiedade, um pânico, uma insônia que não dá trégua. Esse tipo de remédio foi feito pra ser uma ponte, uma travessia curta de poucas semanas. O problema aparece quando a vida vai deixando ele na cabeceira por meses, às vezes anos. No Brasil, são milhões de pessoas nessa situação, a maioria mulheres. Provavelmente alguém bem perto de você.

O corpo se acostuma

Com o uso contínuo, o corpo se adapta. A mesma dose que antes apagava a ansiedade começa a fazer cada vez menos, e pra sentir o alívio do começo seria preciso aumentar. Pior: no intervalo entre uma dose e outra, a ansiedade volta com força, às vezes maior do que era no início. Não é frescura nem falta de força de vontade. É química: o cérebro reorganizou o próprio funcionamento em volta do remédio.

O calmante deixa de servir pra você ficar bem e passa a servir só pra você não ficar mal.

Dá pra depender sem nunca ter aumentado a dose

Você pode ter ficado dependente tomando sempre a mesma dose, do jeitinho que o médico mandou, sem nunca exagerar. Ao contrário do estereótipo, boa parte das pessoas que usa por anos não aumenta a dose nem faz mau uso. A dependência aqui é só o corpo se acostumando. Está bem longe do vício no sentido feio que a palavra carrega. A culpa não é sua. Mas tem algo que você precisa saber antes de tudo: por mais preso que se sinta a ele, não reduza nem pare o remédio sozinho. Parar de repente pode ser perigoso, e a saída segura existe, só que é devagar e com o médico.

Por que você nunca para sozinho

Vale entender o porquê. Quando o corpo já se acostumou, uma parada brusca pode desencadear desde uma ansiedade insuportável até convulsão. Por isso a retirada é feita em degraus pequenos, no ritmo que o seu corpo aguenta, sempre planejada e acompanhada pelo médico ou psiquiatra que cuida de você. Enquanto isso, nada de misturar com álcool: a combinação é mais perigosa do que parece. Eu sou psicóloga: não receito nem mexo na sua medicação. Qualquer mudança é com quem prescreveu, e nunca de uma vez.

Dá pra descer a escada um degrau de cada vez, e nunca sozinha.

O que a terapia faz nessa história

O remédio silenciou o alarme, mas não apagou o incêndio. A ansiedade, a insônia, o medo que levaram você ao comprimido seguem ali embaixo, esperando. É nisso que a terapia trabalha: te dá outras formas de lidar com a angústia e de voltar a dormir, pra que, quando o médico conduzir a retirada, você tenha em que se apoiar. Pra insônia, por exemplo, existe um tipo de terapia que ajuda muita gente no processo de largar o indutor de sono, sempre junto do desmame que o médico conduz, não no lugar dele. Demonizar o remédio nunca foi o ponto. O ponto é você não precisar da muleta pra ficar de pé.

Fontes

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Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.

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