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Auto-estigma: quando a vergonha impede a busca por ajuda

O auto-estigma ocorre quando uma pessoa internaliza os preconceitos sociais sobre dependência e os volta contra si mesma, tornando-se uma das principais barreiras que impedem o tratamento. Entender esse mecanismo é o primeiro passo para atravessá-lo.

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Muitas pessoas que vivem com dependência química sabem, em algum nível, que precisam de ajuda. Sabem. E mesmo assim não buscam. Não porque há falta de informação, não porque não existe tratamento eficaz. Mas porque uma voz interna repete: "você é fraco", "isso é culpa sua", "você não merece recuperação". Essa voz tem nome: é o auto-estigma.

O auto-estigma acontece quando uma pessoa internaliza os estereótipos negativos que a sociedade carrega sobre determinado grupo e começa a aplicar esses julgamentos a si mesma. No contexto das dependências, isso significa absorver a ideia de que quem usa substâncias é moralmente falho, sem força de vontade ou simplesmente não merece cuidado, e acreditar que essas ideias descrevem a própria vida.

Como o estigma social vira estigma interno

O sociólogo Erving Goffman descreveu o estigma, ainda nos anos 1960, como uma marca que desacredita a pessoa diante do grupo social. Décadas depois, pesquisadores como Patrick Corrigan aprofundaram esse conceito e mostraram que o estigma opera em duas camadas: o estigma público, que existe nas atitudes das outras pessoas, e o auto-estigma, que se move para dentro da própria pessoa.

O processo funciona em três etapas. Primeiro, a pessoa toma consciência dos estereótipos existentes na sociedade, como a ideia de que quem tem dependência é "fraco" ou "sem caráter". Segundo, concorda com esses estereótipos, aceitando-os como verdadeiros. Terceiro, aplica esses julgamentos a si mesma: "isso vale para mim". O resultado é uma queda abrupta na autoestima e no senso de autoeficácia, que é a crença na própria capacidade de agir e de mudar.

Quando a autoestima cai e a pessoa passa a se ver como incapaz ou não merecedora de ajuda, a motivação para buscar tratamento também desaba. Corrigan e seus colegas chamaram esse fenômeno de efeito "why try" (algo como "por que tentar"): se a pessoa se vê como irrecuperável, o esforço de buscar cuidado parece sem sentido antes mesmo de começar.

O que os estudos mostram

Uma revisão meta-analítica publicada no Psychological Bulletin em 2022 por Corrigan, Schomerus e colaboradores reuniu evidências de dezenas de estudos e confirmou que o auto-estigma é um preditor robusto da não busca por tratamento em pessoas com transtornos por uso de substâncias. Quanto maior o auto-estigma relatado, menor a probabilidade de a pessoa iniciar um processo de cuidado.

"Self-stigma uniquely predicted reduced treatment-seeking beyond the effects of public stigma and symptom severity, suggesting it operates as an independent barrier to care."

Corrigan PW, Schomerus G et al., Psychological Bulletin, 2022.

Livingston e Boyd, em uma meta-análise de 2010 publicada no Social Science and Medicine, encontraram que o estigma internalizado está associado a menor adesão ao tratamento, mais sintomas depressivos e pior qualidade de vida em pessoas com transtornos mentais, incluindo dependências. O efeito não era marginal: era um dos preditores mais consistentes encontrados em toda a literatura analisada.

Estudos conduzidos por Schomerus e colegas, especificamente com pessoas que têm transtorno por uso de álcool, mostraram que o auto-estigma nesses grupos tende a ser mais intenso do que em outros transtornos mentais. Parte disso se explica pela percepção social de que o uso de álcool é uma "escolha", o que torna o julgamento moral mais direto e, para quem o internaliza, mais difícil de contestar.

Vergonha e o ciclo que se alimenta sozinho

A vergonha é o motor afetivo do auto-estigma. Ela é diferente da culpa: a culpa diz "fiz algo errado", enquanto a vergonha diz "eu sou errado". A vergonha é mais difusa, mais profunda e muito mais paralisante, porque não aponta para um comportamento que pode ser mudado, mas para uma identidade que parece imutável.

Pesquisas de Luoma e colaboradores mostram que a vergonha em pessoas com dependência não apenas impede a busca por ajuda, mas pode funcionar como um gatilho para o próprio uso. A substância passa a ser usada para aliviar o desconforto da vergonha, o que cria um ciclo: o uso gera vergonha, a vergonha alimenta mais uso, e a saída pelo tratamento parece cada vez mais distante e menos merecida.

Esse ciclo é especialmente perverso porque o ambiente externo frequentemente reforça o estigma. Profissionais de saúde, familiares e a mídia continuam, muitas vezes sem perceber, transmitindo mensagens que atribuem a dependência a falhas de caráter. O paciente absorve essas mensagens e as usa contra si mesmo.

Quando o julgamento vem do sistema de saúde

Uma revisão sistemática publicada em 2013 no Drug and Alcohol Dependence por Van Boekel e colegas documentou atitudes estigmatizantes de profissionais de saúde em relação a pacientes com transtorno por uso de substâncias em múltiplos países. Quando o próprio serviço de saúde transmite julgamento, a barreira para buscar ajuda se multiplica: a pessoa já carrega a vergonha interna e ainda antecipa rejeição ou descaso no atendimento.

Isso se traduz em consequências concretas. Pacientes que antecipam julgamento ao buscar atendimento tendem a omitir informações sobre seu uso, a demorar mais para iniciar o cuidado e a abandonar o tratamento antes do tempo. A vergonha antecipatória, que é o medo de ser julgado antes mesmo de qualquer contato real com o serviço, é uma das razões pelas quais muitas pessoas chegam ao tratamento em estágios já avançados da dependência.

Abordagens que trabalham com o estigma internalizado

O auto-estigma é tratável. Não é uma característica imutável da pessoa. É um padrão aprendido, e padrões aprendidos podem ser modificados com suporte especializado.

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem evidências crescentes no trabalho com vergonha em dependências. Um ensaio clínico randomizado de Luoma e colaboradores, publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology em 2012, mostrou que intervenções baseadas em ACT com foco específico na vergonha reduziram o uso de substâncias e aumentaram a taxa de adesão ao tratamento em comparação com o grupo controle.

A Entrevista Motivacional, quando conduzida com cuidado, cria um espaço sem julgamento onde a ambivalência em relação ao tratamento pode ser explorada sem reforçar a vergonha. A psicoeducação sobre a natureza neurobiológica da dependência, ao explicar que se trata de uma alteração em circuitos cerebrais e não de fraqueza moral, tem mostrado reduzir o auto-estigma em estudos de intervenção.

Grupos de apoio com experiência compartilhada também funcionam como antídoto ao isolamento que a vergonha impõe. Saber que outras pessoas passaram pelo mesmo processo e encontraram caminhos de recuperação rompe a narrativa de que "meu caso é irrecuperável, sou diferente dos outros".

Quando buscar ajuda

Se você se reconhece nesse padrão, se há uma parte de você que sabe que precisa de suporte, mas outra que sente que não merece ou que nada vai funcionar, isso não é uma verdade sobre quem você é. É o auto-estigma operando como barreira. E ele mente.

Buscar ajuda profissional não é o sinal de que você chegou ao ponto mais baixo. É o sinal de que você está escolhendo um caminho diferente. A psicologia e a psiquiatria têm hoje um conjunto sólido de ferramentas para trabalhar tanto a dependência quanto o peso da vergonha que frequentemente a acompanha.

A vergonha se alimenta do silêncio e do isolamento. O tratamento começa quando ela é nomeada, reconhecida e colocada no seu devido lugar: como um padrão aprendido, não como uma sentença definitiva sobre quem você é.

Fontes

  1. Corrigan, P. W., Schomerus, G., et al. (2022). Self-Stigma in Substance Use Disorders: A Meta-Analytic Review. Psychological Bulletin, 148(7-8), 526-534.
  2. Corrigan, P. W., Larson, J. E., & Rüsch, N. (2009). Self-stigma and the 'why try' effect: impact on life goals and evidence-based practices. World Psychiatry, 8(2), 75-81.
  3. Link, B. G., & Phelan, J. C. (2001). Conceptualizing stigma. Annual Review of Sociology, 27, 363-385.
  4. Livingston, J. D., & Boyd, J. E. (2010). Correlates and consequences of internalized stigma for people living with mental illness: A systematic review and meta-analysis. Social Science & Medicine, 71(12), 2150-2161.
  5. Schomerus, G., Corrigan, P. W., Klauer, T., et al. (2011). Self-stigma in alcohol use disorders: An investigation of correlates and consequences. Drug and Alcohol Dependence, 114(1), 12-17.
  6. Luoma, J. B., Kohlenberg, B. S., Hayes, S. C., et al. (2012). Slow and steady wins the race: A randomized clinical trial of acceptance and commitment therapy targeting shame in substance use disorders. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 80(1), 43-53.
  7. van Boekel, L. C., Brouwers, E. P., van Weeghel, J., & Garretsen, H. F. (2013). Stigma among health professionals towards patients with substance use disorder and its consequences for healthcare delivery. Drug and Alcohol Dependence, 131(1-2), 23-35.
  8. Goffman, E. (1963). Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. Prentice-Hall.
  9. Room, R. (2005). Stigma, social inequality and alcohol and drug use. Drug and Alcohol Review, 24(2), 143-155.
  10. Brown, S. A. (2011). Standardized measures for substance use stigma. Drug and Alcohol Dependence, 116(1-3), 137-141.
  11. Luoma, J. B., Guinther, P. M., Lawless DesJardins, N. M., et al. (2018). Is shame a proximal trigger for drinking? A daily diary investigation with a community sample. Experimental and Clinical Psychopharmacology, 26(3), 290-301.

Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.

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