O alívio que você busca pode ser o que alimenta a ansiedade
Evitar, checar, sair mais cedo, tomar alguma coisa: o que acalma a aflição no minuto seguinte costuma ensiná-la a voltar mais forte. O que a ciência mostra sobre a armadilha do alívio, e o que de fato funciona.
Imagine o seguinte cenário: Faz três anos que você evita andar elevador. Então, você sobe oito andares de escada todo dia, cansando, justificando pra si mesmo que é mais saudável. Não é sobre exercício. É sobre não sentir o coração disparar quando estiver dentro do elevador.
A ansiedade pede uma coisa só, e pede com urgência: "faça isso parar agora". Quase sempre a gente obedece. Cancela o plano. Sai mais cedo da festa. Manda a quinta mensagem pedindo confirmação de que está tudo bem. Toma um gole para afrouxar o nó na garganta. Vem o alívio. E ele parece a prova de que deu certo. O problema é que esse ensina a ansiedade a voltar mais forte.
Tudo que você faz para fugir do medo ensina ao seu cérebro que aquilo era mesmo perigoso.
O que é a ansiedade, afinal
Sentir medo não é fraqueza. É uma função antiga do cérebro. A amígdala funciona como um alarme: dispara diante de uma ameaça e prepara o corpo para reagir antes de você pensar. Na medida certa, protege. Porém, se torna um transtorno quando esse alarme passa a disparar alto demais, com frequência demais, diante do que não é perigo de verdade, enquanto a parte do cérebro que deveria acalmá-lo perde força. Não é frescura. É uma desregulação que se mede no sistema nervoso. E tem tratamento.
A armadilha do alívio
Quando você foge da situação que assusta, ou usa algum "truque" para aguentá-la (ensaiar a frase mil vezes, ter sempre uma saída combinada), sente alívio. Mas aprende a lição errada: que a catástrofe só não veio porque você se protegeu. A ameaça nunca chega a ser desmentida. Na próxima vez, o medo volta igual, às vezes pior.
Por isso enfrentar aos poucos funciona, e fugir não. Aproximar-se do que se teme, gradualmente, não apaga o medo antigo. Constrói, por cima dele, um aprendizado mais forte: o de que dá para ficar e nada terrível acontece. Cada fuga adia esse aprendizado. Cada vez que você permanece, ele cresce.
Quando o alívio vira dependência
Existe uma versão dessa armadilha que é o centro do meu trabalho. O alívio mais rápido para a aflição costuma vir de uma substância: o álcool, o remédio que ninguém receitou, qualquer coisa que desligue o desconforto por algumas horas. Resolve no momento. E é esse "resolver no momento" que prende.
Quem usa álcool para aliviar a ansiedade tem cerca de 2,5 vezes mais risco de desenvolver dependência.
Turner et al., 2018
Ansiedade não cuidada não é só o sofrimento de agora. É porta de entrada.
O que de fato funciona
Poucos problemas em saúde mental têm um tratamento tão bem estudado. A terapia cognitivo-comportamental é primeira linha para a ansiedade: comparada a placebo, quase triplica a chance de melhora. E não é pensar positivo. É reconhecer os alarmes falsos, parar de alimentá-los com fuga, e se aproximar do que assusta num ritmo que você consegue sustentar.
Para quem mora longe ou tem pouca rotina livre, vale saber: o atendimento online tem eficácia equivalente à do presencial. Duas revisões recentes não acharam diferença relevante entre os formatos. Dá para começar de casa sem perder resultado.
O objetivo não é nunca mais sentir medo. Medo vai aparecer, e tudo bem. É ensinar ao seu cérebro, aos poucos, que alguns desses alarmes não anunciam perigo real, e que você não precisa fugir para dar conta deles. Esse reaprendizado é possível, e você não precisa fazer isso sozinho.
Fontes
- Hofmann, S. G., Asnaani, A., Vonk, I. J. J., Sawyer, A. T., & Fang, A. (2012). The Efficacy of Cognitive Behavioral Therapy: A Review of Meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, 36(5), 427-440.
- Carpenter, J. K., et al. (2018). Cognitive behavioral therapy for anxiety and related disorders: A meta-analysis of randomized placebo-controlled trials. Depression and Anxiety, 35(6), 502-514.
- Craske, M. G., et al. (2014). Maximizing Exposure Therapy: An Inhibitory Learning Approach. Behaviour Research and Therapy, 58, 10-23.
- Khantzian, E. J. (1997). The self-medication hypothesis of substance use disorders: a reconsideration and recent applications. Harvard Review of Psychiatry, 4(5), 231-244.
- Turner, S., Mota, N., Bolton, J., & Sareen, J. (2018). Self-medication with alcohol or drugs for mood and anxiety disorders: A narrative review of the epidemiological literature. Depression and Anxiety.
- Lazareck, S., et al. (2012). A Longitudinal Investigation of the Role of Self-Medication in the Development of Comorbid Mood and Drug Use Disorders. Journal of Clinical Psychiatry.
- Martin, E. I., Ressler, K. J., Binder, E., & Nemeroff, C. B. (2009). The Neurobiology of Anxiety Disorders. Psychiatric Clinics of North America, 32(3).
- Esfandiari, N., et al. (2021). Internet-Delivered Versus Face-to-Face Cognitive Behavior Therapy for Anxiety Disorders: Systematic Review and Meta-Analysis. International Journal of Preventive Medicine.
- Zhang, W., et al. (2022). Comparative efficacy of face-to-face and internet-based cognitive behavior therapy for generalized anxiety disorder: A meta-analysis. Frontiers in Psychiatry.
- Reyes, A. N., & Fermann, I. L. (2017). Eficácia da terapia cognitivo-comportamental no transtorno de ansiedade generalizada. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 13(1).
- Porto, P., et al. (2008). Evidências científicas das neurociências para a terapia cognitivo-comportamental. Paidéia (Ribeirão Preto), 18(40).
Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.
Receba conteúdos que acolhem
De tempos em tempos, reflexões sobre recomeços, vínculos e cuidado emocional — sem julgamentos, direto no seu e-mail.


