Pular para o conteúdo

ACT para compulsões e o que dizem as pesquisas

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) aumenta a flexibilidade psicológica para romper ciclos compulsivos. O que dizem as revisões sistemáticas e os ensaios clínicos.

Capa do texto: ACT para compulsões e o que dizem as pesquisas

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, do inglês Acceptance and Commitment Therapy) é uma abordagem da terceira geração da terapia cognitivo-comportamental, desenvolvida por Steven C. Hayes e colaboradores nas décadas de 1980 e 1990. Seu objetivo central é aumentar a flexibilidade psicológica, não eliminar pensamentos ou emoções difíceis.

Essa distinção tem consequências diretas para o tratamento de compulsões.

Fusão cognitiva e a função das compulsões

A TCC clássica busca modificar pensamentos disfuncionais. A ACT parte de outra premissa: pensamentos não precisam mudar para que o comportamento mude. O que importa é a relação que o paciente tem com esses pensamentos.

Fusão cognitiva é o processo em que a mente trata um pensamento como se fosse um fato literal e urgente. "Preciso comer agora para aguentar o dia." "Sem isso não consigo me acalmar." Na compulsão, essa fusão é central: o impulso parece irrecusável, como se houvesse uma emergência real. Desfusão cognitiva, proposta pela ACT, consiste em criar distância em relação ao pensamento. O paciente aprende a observá-lo como um evento mental, e não como um comando que precisa ser obedecido.

Hayes e colaboradores documentaram esse modelo em 2006 no Behaviour Research and Therapy, descrevendo seis processos interligados que compõem a flexibilidade psicológica, organizados no chamado hexaflex.

O hexaflex e os seis processos de mudança

O hexaflex organiza seis dimensões da flexibilidade psicológica: aceitação, desfusão cognitiva, contato com o momento presente, self como contexto, valores e ação comprometida. Cada dimensão responde a um padrão problemático oposto: evitação experiencial, fusão cognitiva, ruminação ou preocupação, self conceituado, ausência de direção de vida e impulsividade ou inação.

Nas compulsões, a evitação experiencial tem papel de destaque. O paciente aprende, ao longo de anos, que determinada ação (comer compulsivamente, usar uma substância, verificar repetidamente) reduz temporariamente uma experiência interna aversiva, como ansiedade, vergonha ou tédio. O alívio imediato reforça o ciclo. A ACT atua exatamente nessa função: ao expandir a capacidade de tolerar o desconforto sem que o comportamento compulsivo precise ocorrer, o padrão perde força.

Hayes, Wilson e colaboradores (1996) já descreviam esse mecanismo como "evitação experiencial e transtornos comportamentais", propondo uma abordagem funcional ao diagnóstico e ao tratamento, publicada no Journal of Consulting and Clinical Psychology.

Self como contexto é outro ponto diferencial. Na compulsão severa, o paciente frequentemente se identifica com o comportamento ("sou alguém que não tem controle"). A ACT trabalha a perspectiva do observador: existe uma parte de si que observa a compulsão sem ser a compulsão. Isso reduz a fusão de identidade com o comportamento problemático e abre espaço para escolhas diferentes.

Uma meta-análise reunindo 17 estudos sobre transtornos de uso de substâncias concluiu que a ACT produziu efeitos significativos na redução do uso e no aumento do funcionamento psicológico em comparação a grupos-controle.

Lee et al., Drug and Alcohol Dependence, 2015

Valores como direção, não como destino

O trabalho com valores é o ponto mais original da ACT. Valores funcionam como direções de vida, formas de ser que o paciente considera importantes, e que existem independentemente de como ele se sente no momento. Ser um pai presente. Ser honesto. Cuidar da própria saúde. Nenhum desses valores depende de estar bem para ser perseguido.

Para quem vive com compulsões, os valores costumam estar soterrados. A vida organiza-se ao redor do comportamento compulsivo e de tudo que é feito para encobri-lo ou compensá-lo. O trabalho com valores na ACT reconstrói um referencial. O paciente pergunta a si mesmo o que quer que aquele momento da vida signifique e age a partir daí, mesmo com o impulso presente.

Isso é ação comprometida. Ela pressupõe movimento em direção ao que importa mesmo enquanto o desconforto ainda está ativo. A abstinência pode ser consequência desse processo, mas nem sempre é o único objetivo do trabalho.

O que as revisões sistemáticas mostram

A base empírica da ACT para transtornos de uso de substâncias cresceu substancialmente desde os estudos de Gifford e colaboradores com cessação do tabagismo, publicados em 2004 no Behavior Therapy. Aquele ensaio mostrou resultados superiores ao tratamento habitual com substituição nicotínica, tanto no curto prazo quanto em follow-up de seis meses.

Luoma e colaboradores (2012) realizaram um ensaio clínico randomizado com foco específico em vergonha nos transtornos de uso de substâncias, publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology. A ACT produziu resultados favoráveis em relação a grupos de comparação ativa. Para compulsões no espectro obsessivo-compulsivo, Twohig e colaboradores (2010) conduziram o primeiro ensaio randomizado comparando ACT ao relaxamento progressivo no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

No ensaio de Twohig et al. (2010), 46% dos pacientes com TOC tratados com ACT atingiram critérios de resposta clínica ao fim do tratamento, em comparação a 13% no grupo de relaxamento progressivo.

Journal of Consulting and Clinical Psychology, 2010

Ruiz (2012) revisou sistematicamente estudos comparando ACT à TCC tradicional e encontrou resultados equivalentes na maioria dos desfechos, com a ACT apresentando vantagens em medidas de qualidade de vida e bem-estar psicológico. Levin e colaboradores (2012) identificaram que desfusão e aceitação, avaliadas em laboratórios comportamentais, já produzem efeitos mensuráveis quando aplicadas isoladamente, sem os demais componentes do hexaflex.

Quando buscar avaliação especializada

A ACT tem indicação direta para compulsões comportamentais sem substância, como compulsão alimentar, compulsão sexual ou padrões compulsivos de uso de tecnologia. A flexibilidade psicológica, medida pelo Acceptance and Action Questionnaire-II (AAQ-II), é um preditor robusto de desfechos em psicopatologia geral. Bond e colaboradores (2011) documentaram as propriedades psicométricas do AAQ-II e sua capacidade de discriminar entre diferentes níveis de disfunção psicológica.

Para dependência química grave, com síndrome de abstinência ou risco clínico, o manejo médico e a desintoxicação supervisionada têm prioridade. A ACT entra como intervenção psicológica complementar, combinável com farmacoterapia ou com outras abordagens da terceira geração da TCC.

O indicador prático mais direto é a função do comportamento. Se interrompê-lo produz angústia intensa e imediata, e se a vida foi progressivamente reorganizada ao redor dele, a avaliação especializada é o próximo passo. A compulsão não é uma falha de caráter. É um padrão funcional aprendido, e padrões aprendidos podem ser modificados com a abordagem adequada.

Fontes

  1. Hayes, S. C., Luoma, J. B., Bond, F. W., Masuda, A., & Lillis, J. (2006). Acceptance and commitment therapy: Model, processes and outcomes. Behaviour Research and Therapy, 44(1), 1-25.
  2. Hayes, S. C., Wilson, K. G., Gifford, E. V., Follette, V. M., & Strosahl, K. (1996). Experiential avoidance and behavioral disorders: A functional dimensional approach to diagnosis and treatment. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 64(6), 1152-1168.
  3. Lee, E. B., An, W., Levin, M. E., & Twohig, M. P. (2015). An initial meta-analysis of Acceptance and Commitment Therapy for treating substance use disorders. Drug and Alcohol Dependence, 155, 1-7.
  4. Gifford, E. V., Kohlenberg, B. S., Hayes, S. C., Antonuccio, D. O., Piasecki, M. M., Rasmussen-Hall, M. L., & Palm, K. M. (2004). Acceptance-based treatment for smoking cessation. Behavior Therapy, 35(4), 689-705.
  5. Luoma, J. B., Kohlenberg, B. S., Hayes, S. C., & Fletcher, L. (2012). Slow and steady wins the race: A randomized clinical trial of acceptance and commitment therapy targeting shame in substance use disorders. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 80(1), 43-53.
  6. Twohig, M. P., Hayes, S. C., Plumb, J. C., Pruitt, L. D., Collins, A. B., Hazlett-Stevens, H., & Woidneck, M. R. (2010). A randomized clinical trial of acceptance and commitment therapy versus progressive relaxation training for obsessive-compulsive disorder. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 78(5), 705-716.
  7. Ruiz, F. J. (2012). Acceptance and commitment therapy versus traditional cognitive behavioral therapy: A systematic review and meta-analysis of current empirical evidence. International Journal of Psychology and Psychological Therapy, 12(3), 333-358.
  8. Levin, M. E., Hildebrandt, M. J., Lillis, J., & Hayes, S. C. (2012). The impact of treatment components suggested by psychological flexibility theory: A meta-analysis of laboratory-based component studies. Behavior Therapy, 43(4), 741-756.
  9. Bond, F. W., Hayes, S. C., Baer, R. A., Carpenter, K. M., Guenole, N., Orcutt, H. K., Waltz, T., & Zettle, R. D. (2011). Preliminary psychometric properties of the Acceptance and Action Questionnaire-II: A revised measure of psychological inflexibility and experiential avoidance. Behavior Therapy, 42(4), 676-688.

Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento profissional. Se você está em sofrimento, procurar ajuda é um ato de coragem.

WhatsApp